Ontem fui à praia – e salvou a minha sanidade mental.

Em nossa casa somos quatro pessoas e dois animais. Dois adultos, dois semi-adultos, um golden retriever e um gato. Ontem, dia 22 de março de 2020, domingo, em pleno estado de emergência, enfiamo-nos todos os seis no nosso carro, munidos de toalhas para secar o cão e um saco para enfiar o gato, e guiamos os cerca de 16 Km que nos levam até à praia de Matosinhos. Fomos sem a certeza se conseguiríamos lá chegar, mas com a certeza absoluta que o isolamento social com que nos comprometemos, continuava a ser integralmente cumprido.

16 de Março de 2020

Desde que fecharam as escolas, no dia 16 de Março que vimos construindo uma nova rotina. Os miudos recolhidos em casa fazem as coisas deles da escola ao ritmo que cada um determina para si. Eu com a liberdade do auto-teletrabalho feito no espirito dos descobridores de outrora, sem mapa, em águas desconhecidas, guiada pela certeza de novas descoberta. O pai dos miúdos, com um prazo da FCT à porta e os colaboradores ausentes, utilizando o tempo extra, o sossego e relativo abandono da faculdade de medicina para fazer trabalho do laboratório que tem à sua responsabilidade. Em nossa casa, um apartamento T3 de aproximadamente 100 m2, fomos encontrando formas de nos irmos organizando.

Na primeira semana foi tudo novo.

Naqueles últimos dias de não saber o que iria acontecer, das filas novas e lentas para ir ao supermercado, dos parque da cidade fechados. Os passeios diários com o cão começaram a ser um calcorrear das ruas aqui à volta, a explorar novas alternativas para comprar algures o que falta em casa e numa tentativa de manter alguma mobilidade. O novo critério de seleção de lojas: o número de pessoas à porta e a probabilidade de terem o que desejavamos adquirir. O número de pessoas lá dentro nunca foi um critério de exclusão pois era invariávelmente baixo.

E assim se passou uma semana. Sentados, com o computador, a fazer coisas de interesse relativo. Com asfalto debaixo dos pés para passear e apanhar algum ar fresco.

E começámos imperceptívelmente a sonhar com àrvores, com sol, com liberdade, e com movimento.

COVID 19

A informação mais importante para nos precavermos de uma doença é a de conhecer os caminhos possíveis para o agente sair de um individuo e entrar em outros. No caso da doença provocada por este corona virus, uma doença respiratória, acredita-se que se espalha através de goticulas de saliva que saem de um individuo contaminado quando tosse e que entra pelo nariz, boca e olhos do novo individuo, onde chega transportado pelas goticulas em suspensão no ar ou particulas que sobrevivem nas mãos e superficies contaminadas. Beijar alguém doente e lamber superficies contaminadas, será desaconselhado.

A cadeia de transmissão do virus SARS-CoV-2 que causa a COVID19

Sabendo quais são os caminhos possíveis para a infeção sobra-nos saber quais são os modos que temos de impedir o seu progresso. Neste caso “agarrar”, “limpar”, “lavar mãos”, “não tocar” e aquela que será talvez a mais dificil para muitos de nós, o “distanciamento social”.

Este virus, quando sai do corpo que está infectado e é expelido, fica em suspensão em goticulas no ar ou deposita-se em superficies. Pensa-se que quando está depositado em plástico ou aço mantém-se capaz de infectar durante 72 h! No entanto, em aerosois (goticulas no ar) pensa-se que será capaz de infectar outras pessoas durante aproximadamente 3h (ref. 1), dependendo da temperatura e humidade ambientes. Não há qualquer evidência para a sua infectividade no ar livre.

Matosinhos

Quando chegámos á zona da Rotunda da Anémona verificamos que não havia muitos carros estacionados e que o espaço na areia estava relativamente vazio. Fizemos uns cálculos mentais, seria fácil mantermos a distância das outras pessoas devido à pouca densidade de ocupação do areal. Sob a luz brilhante do sol e com o vento a brilhar não estaríamos e menos de 2 metros de ninguém e lá fomos todos em conjunto para o areal.

Portugal é um longo e extenso areal. Se todos os portugueses rumassem em direção às praias, ou ao campo, todos ao mesmo tempo, conseguiriam ainda assim manter-se a bem mais de 2 metros de distância uns dos outros, sem qualquer dificuldade. Temos vento quase todos os dias e o sol começa a brilhar com intensidade.

O Sol e a saúde mental

Se os portugueses saissem das suas casas e rumassem à natureza, faziam exercicio, apanhavam ar fresco, apanhavam sol e movimentavam-se. Todos estes beneficios para a sua saúde mental e bem-estar amplamente compensariam o risco minimo que viria de se cruzarem com um infetado. Esse, ao ar livre, teria de praticamente tussir em cima de alguém, para conseguir partilhar o virus com alguém. Com cafés, esplanadas e restaurantes fechados há uma depleção afortunada de plástico e aço onde o virus possa sobreviver.

A tentação de fazer como alguns dos séniores das noticias e enumerar todas as catastrofes a que já sobrevivemos, como prova de que iremos sobreviver à próxima, é tentador: “Sobrevivi à guerra do ultramar, a dois partos, e àquele chefe. Eu cá sou uma sobrevivente!”. É tentador, embora não seja amplamente considerada um argumento estatisticamente sólido.

Todos estes embates anteriores desgastaram um ser humano e que a idade vai acumulando. Portanto, ignorando tudo aquilo a que já sobrevivemos e sabendo que haverá algo a que, inevitavelmente não iremos sobreviver, a questão que nos devemos realmente colocar é: “Qual é as condições em que quer sobreviver?”.

E, para quem sobreviveu a muito, há uma ou outra coisa pelas quais vale a pena arriscar, especialmente conhecendo o “inimigo” e as suas artimanhas.

Um passeio ao ar livre depois de uma semana fechada em casa com o computador, com o cão a aproveitar as ondas, os miudos a mexer e a interagir com o mundo real, sentir o vento na cara e o cheiro a maresia. O prazer de sentir o coração a bater no peito e o ar a entrar nos pulmões, a muitos metros de distância de todos os desconhecidos num local ao ar livre batido pelo sol e pelo vento, sem pessoas a tossir. Qual é a probabilidade real de alguém contaminar ou ser contaminado?

Porque o que sei dos modos de transmissão diz-me que o risco é minimo e porque seria preciso um tipo de azar de magnitude ACS para algum de nós, com menos de 48 anos e sem outras doenças, apanhar a versão feia da COVID19. Também estamos longe e distantes de todos e quaisquer outros seres humanos que pudessem ficar contaminados por nossa causa.

Certificámo-nos disso. E mais, os outros à nossa volta estavam tão atentos como nós. Curiosamente.

Outra ideia

E que tal, se em vez de impedir os portugueses de ir para a beira mar passear, respirar ar fresco, movimentar-se livremente ao ar livre e apanhar sol, porque é que as autoridades não desenvolvem uma app para monitorizar a afluência de locais na praia, rio e campo, e sugerir locais mais desertos para onde ir?

empty pathway surrounded by tree, forest, nordic forest, nature, HD wallpaper
Referências
  1. N Engl J Med. 2020 Mar 17. doi: 10.1056/NEJMc2004973. [Epub ahead of print]
    Aerosol and Surface Stability of SARS-CoV-2 as Compared with SARS-CoV-1.
    van Doremalen N1, Bushmaker T1, Morris DH2, Holbrook MG1, Gamble A3, Williamson BN1, Tamin A4, Harcourt JL4, Thornburg NJ4, Gerber SI4, Lloyd-Smith JO5, de Wit E6, Munster VJ6.

Publicado por Ofélia Carvalho

Practicioner, Master Practicioner e Trainer de PNL, Consultora do Panorama Social, formação em Comunicação generativa e coaching sistémico, Practitioner de Time Line therapy, Practitioner do Human Validation Model - Virginia Satir. Licenciada em Biologia (FCUL) e Doutorada em Ciências Biomédicas (FMUL) na área das neurociências.

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