Carta a uma mãe

Porto, 05 Abril 2020

Boa tarde Maria,

Obrigada por ter partilhado comigo as ideias que a Ordem dos Psicólogos tem sobre como eu devo lidar com esta pandemia e com a clausura forçada com os meus filhos. Gosto particularmente da ideia do “kit” de sobrevivência. E agradeço a sua preocupação e intenção positiva na partilha.

Na minha experiência, infelizmente, os conselhos dos psicólogos ignoram que os pais que estão capazes de seguir os seus conselhos são exatamente aqueles pais que menos necessitam deles:

“Os pais são também aconselhados a ter uma “dose reforçada de paciência, compreensão e criatividade”.


Se fosse fácil atingir e manter um estado de paciência, compreensão e criatividade, estipular e implementar um horário seria uma questão de perseverança. Primeiro levanta-se a dúvida se ser capaz de aderir a um horário e manter a regularidade temporal do decorrer dos dias, garante sentimentos de totalidade e integração interior…

Segundo, os pais em casa, presos com os seus rebentos de diversas idades, debatendo-se com diversos níveis de exigências laborais, e com diversas capacidades intrinsecas de lidar com a incerteza e o desconhecido, irão inevitavelmente deparar-se com emoções que provavelmente irão incluir também frequentemente a frustração, cansaço, medo, irritação e ansiedade para além da paciência, compreensão e criatividade.

Todos temos um vasto repertório de cores, sabores e odores emocionais e qual deles vem “temperar” a experiência do nosso dia é frequentemente aleatório e raramente sobre o nosso controlo consciente.

Inevitavelmente, os pais que mais necessitam de sugestões e auxílio para lidar com o dia-a-dia nesta crise são aqueles que tem mais dificuldade em aceitar o desfasamento entre a realidade diária e a sua imagem interior do que “deveria ser”.

Os pais que estão a lidar bem com a nova realidade, ou conseguiram manter uma normalidade semelhante à anterior, ou não conseguiram, e sentem-se perfeitamente em paz com as novas circunstâncias.

O desfasamento entre a realidade vivenciada e a expectativa interna é o palco onde se geram os sentimentos de inadequação, ansiedade, vergonha e outras emoções intensas e geralmente compreendidas como negativas. E é só nesse momento, em que se dá uma identidade negativa ao que vê e sente e ouve, que o desfasamento entre o real e o imaginado se torna “mau” ou “um problema”.

Uma amiga minha, na sua página do Facebook resumiu aquilo que considero ser a ideia principal para ser um bom pai ou mãe, e para lidar adequadamente com este momento: 

“Quando tiver vontade de atirar os seus filhos pela janela, não o faça.”

Dependendo da idade dos miúdos, e do nível de exigência laboral a que os pais estão sujeitos, estes momentos obrigatórios de tempo partilhado vão levar a que imensas emoções possam surgir descontroladamente à superficie. E nem todas vão ser da côr da criatividade e da paciência.

Quando o almoço fôr às 4 da tarde e constituído de salsichas em lata e batata frita de pacote e estiver infeliz com essa situação, abrace completamente esse sentimento. Sinta toda a enormidade da distância que existe entre si e todos os super-homens e super-mulheres que conseguem manter as coisas nos carris.

Maldiga a sua sorte. Se ao menos os seus filhos fossem obedientes. Organizados. Sorridentes. Trabalhadores. Disciplinados.

Se ao menos você fosse.

Entre no sentimento negativo e aceite-o. Experimente com ele. Deixe de tentar ter uma ideia sua diferente do que a realidade dos seus sentidos lhe trás. O que é que acredita, sobre si, que lhe torna dificil aceitar a realidade como ela se apresenta? E de onde é que vem essa crença? Quem é que lhe disse isso? Qual é o fantasma que alimenta esse sentimento? E o que é que ele deseja para si? Qual é a intenção positiva, o desejo positivo, que essa voz interior tem para si?

Aceite os seus sentimentos negativos. Aceite as suas falibilidades. E no fim do dia responda à pergunta: “Atirei os miúdos pela janela? Não. Linda menina!”. 

A verdade é que a vida vai eventualmente voltar à normalidade, às rotinas do costume. Vamos aproveitar para aprender a viver com quem somos, não com quem achamos que desejávamos ser.

Publicado por Ofélia Carvalho

Practicioner, Master Practicioner e Trainer de PNL, Consultora do Panorama Social, formação em Comunicação generativa e coaching sistémico, Practitioner de Time Line therapy, Practitioner do Human Validation Model - Virginia Satir. Licenciada em Biologia (FCUL) e Doutorada em Ciências Biomédicas (FMUL) na área das neurociências.

4 opiniões sobre “

  1. Adorei Ofelia! Pf continua a lançar uma luzinha sobre estes dias tão nublados.

    Beijinhos

    Bárbara Marto Pimenta ________________________________ De: Ofélia Carvalho, PhD. Enviado: Sunday, April 5, 2020 5:35:18 PM Para: martobarbara@gmail.com Assunto: [New post] 2325

    Ofélia Carvalho posted: ” Carta a uma mãe Porto, 05 Abril 2020 Boa tarde Maria, Obrigada por ter partilhado comigo as ideias que a Ordem dos Psicólogos tem sobre como eu devo lidar com esta pandemia e com a clausura forçada com os meus filhos. Gosto particularmente da “

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  2. Gostei muito, Ofélia. Estás a atingir a sabedoria da minha faixa etária…
    Será que o confinamento acelara todas as reacções? A criatividade, a generosidade, a empatia, a sabedoria… Já dei conta que acelera a bagunça da sala, o crescimento da pilha da roupa que espera o ferro, o pó nos cantos onde o aspirador não consegue ir, o número de livros que se deseja ler ou reler, a saudade dos amigos, a saudade do mar … Só não acelera a passagem dos dias pelo calendário.
    Um grande abraço para ti
    Migusta

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