A criatividade radical e os holons.

“Wherever we find orderly, stable systems in Nature, we find that they are hierarchically structured, for the simple reason that without such structuring of complex systems into sub-assemblies, there could be no order and stability-except the order of a dead universe filled with a uniformly distributed gas.” 
― Arthur Koestler, The Ghost in the Machine

Os processos naturais, cognitivos e biológicos tem uma estrutura hierárquica, com níveis inferiores contidos em níveis superiores.

Cada um dos níveis hierárquicos é simultaneamente um “Todo” e uma “Parte”. Uma célula cardíaca é um “Todo” e é uma “Parte” de um todo maior, o “Coração”. O “Coração” é um “Todo” que é parte de um todo maior, o “Organismo”.

A Lua. O Golden Retriever que vive em nossa casa.

A “Lua” é um “individuo”. Dentro dessa unidade viva que eu conheço pelo nome “Lua”, existem vários órgãos, cada um deles com uma função específica.

A Lua tem um coração, um fígado, intestinos, bexiga, cérebro, etc. O coração dela tem uma organização, um formato, que nos permitiria reconhece-lo como um coração mesmo que – por algum acaso infeliz – esse coração se encontrasse fora da Lua.

Esse coração, e todos os corações, são compostos por células, que são entidades em si mesmas.

As células do coração são individualidades. Vivem, dividem-se, em alguns casos, quando lhes são dadas condições de vida independentemente do coração, individualmente, continuam a “bater”.

Células progenitoras cardiomiogénicas primárias derivadas de tecidos cardíacos de embriões de ratinho E15.5. (A) Morfologia dos progenitores cardiomiogénicos primários isolados em cultura celular. São mostrados conjuntos representativos de células. As células primárias mostraram manter o batimento rítmico em cultura. (In doi: 10.7150/ijms.6639)

A criatividade radical implica a utilização da mesma estrutura em funções novas.

Podemos utilizar um relógio na sua função original de medir horas.

Ou podemos utilizá-lo como objeto de arremesso.

Ou para tapar buracos de fechadura e preservar a privacidade.

Ou como pesa- papéis.

Ou como calço para uma mesa que não está nivelada.

Ou para preparar drogas.

A realidade, composta de Holons, emerge “Holarquicamente”.

Unidades pré-existentes são utilizadas de novas formas, que podem ser completamente diferentes das formas como eram utilizadas anteriormente ou até do seu propósito original.

MobileCommunication

No inicio havia a necessidade de comunicação móvel a longa distância que, por utilização e adaptação de entidades pré-existentes originou entidades denominadas “smartphone” que  nos permitem comunicar à distância, tirar fotografias, afinar os instrumentos musicais, iluminar o caminho numa noite escura, fazer reportagens em tempo de guerra, etc.

“If Nature abhors the void, the mind abhors what is meaningless. Show a person an ink-blot, and he will start at once to organize it into a hierarchy of shapes, tentacles, wheels, masks, a dance of figures.”
― Arthur Koestler, The Ghost in the Machine

As nossas perceções e representações do mundo exterior são igualmente feitas através de um mecanismo de Holon. Este Holon constitui-se como uma “unidade de significado” que mistura em si diferentes elementos.

O sistema de processamento de informação visual, está organizado hierarquicamente com regulação do funcionamento dos níveis inferiores pelos níveis superiores, e regulação do funcionamento dos níveis superiores pelos níveis inferiores.

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A luz estimula bastões (Rod) e cones que são células ligeiramente diferentes existentes na retina. Os bastões (Rod) são mais sensíveis à luz brilhante, e são responsáveis pela perceção da cor, enquanto que os cones são mais sensíveis à luz difusa.

rods e cones

A estimulação destas células na retina leva à transmissão da informação através de 2 feixes de axónios diferentes. Do sistema de deteção visual para regiões cerebrais envolvidas em processos cognitivos mais elaborados.

Quando vemos uma banana amarela ou uma maçã vermelha numa sala com luz azul, fazemo-lo porque conhecemos a cor das bananas e a cor das maçãs e criamos essa percepção. 

Nós “vemos” aquilo que esperamos ver.

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“Let me repeat: the crimes of violence committed for selfish, personal motives are historically insignificant compared to those committed ad majorem gloriam Dei, out of a self-sacrificing devotion to a flag, a leader, a religious faith or a political conviction. Man has always been prepared not only to kill but also to die for good, bad or completely futile causes. And what can be a more valid proof of the reality of the self-transcending urge than this readiness to die for an ideal?”
― Arthur Koestler, The Ghost in the Machine

E se o mundo é organizado “Holarquicamente” quando olhamos para níveis inferiores, o que acontece quando olhamos para níveis superiores?

Temos grupos organizados em que o individuo é um “Todo” mas do qual se constitui também como uma “Parte”.

A Família.

A família. Mas também o emprego, a comunidade onde vive, o Pais, o Mundo.

E se em cada um dos níveis criamos uma unidade que engloba e transcende os níveis inferiores. Algo, um Todo, que contém mas é mais do que a soma das partes. Nós, e os niveis holárquicos superiores dos quais somos uma parte, somos as “células” constituintes de que “Orgão” de que Ser?

Isto lembra-me uma história…