Rapport

Quando era miúda ia para a Serra da Estrela com os meus pais. Ficávamos alojados num convento de freiras, com longos corredores de paredes lisas e brancas, chão de pedra, e portas de madeira que terminavam em espaços amplos e em halls quadrados cheios de escadas de madeira suspensas. De corredores que se formavam em volta de um relvado central e desembocavam, inesperada e aleatoriamente, em portas fechadas, espaços desconhecidos e locais vagamente interditos.

Lembro-me do cheiro a cera da capela, das refeições de morcela e batata cozida e de um pudim de vinho tinto que nunca ninguém conseguiu reproduzir.

Um dia nesse convento, familiar e secreto, inesperado e conhecido, com uma identidade labirintica, circular, ampla e arejada, entrou uma andorinha.

A andorinha voou a razar, a uma velocidade demasiado alucinante, demasiado rápida, por cima das nossas cabeças, ao longo dos corredores. Tão perto de nós que a sentíamos a passar com todas as moléculas do nosso corpo. Sentíamos o vento vindo dela, víamos o seu corpo negro e imaginávamos a sua aflição em escapar. E a aflição dela tornou-se a nossa aflição. E nós queríamos ajuda-la, mas como?

Como?

Como podemos ensina-la a voar para as janelas abertas? Como lhe podemos explicar que metade da janela tem vidro e não o caminho para a liberdade? Como é que a ensinamos a voar mais devagar? Porque é que ela foge de nós quando nos aproximamos? E porque recomeça esse voo alucinante a uma velocidade demasiado rápida, num espaço demasiado exíguo e com demasiadas promessas falsas?

Como é que, eu, a posso ajudar?

No outro dia estava no carro, ao lado do meu marido, a caminho de nossa casa, e á frente do nosso carro lá estava uma andorinha, a voar da maneira linda como elas voam, deslizando pelo ar na nossa direção, mesmo em frente ao meus olhos.

Naquele momento todo o meu ser ficou absorvido por aquela visão.

A minha admiração pelas curvas dos ombros dela, ligeiros, aerodinâmicos, como um peixe. Longuilinea, com todo aquele corpo aerodinâmico e leve, desenhado para a velocidade. E naquele momento de admiração profunda eu fui aquele individuo que voava e vi o mundo pelos seus olhos. Vi a forma como tudo se transforma em jogos de luz e de sombras. Senti a velocidade com que tenho de decidir por onde navegar. Senti-me a nadar no espaço com os meus bracos aileron a empurrar o ar em que deslizo.

E, nesse momento, eu soube exatamente como ajudar a andorinha perdida nos corredores da minha infância.