A formiga

A formiga

Era uma vez uma formiga que tinha todas as cinco das suas pernas exatamente idênticas às pernas de todas as outras formigas, e uma sexta perna apenas, que era algo um bocadinho diferente. As pernas das formigas são todas um bocadinho tortas, se fossem direitas não tocavam no chão e nunca seria possível andar com elas! Mas isso não ocorria à nossa formiga enquanto olhava para a perna diferente.

A quantidade de energia que o bicho gastava preocupada com aquela perna! A tentar, tentar, tentar, que fosse igual à das outras formigas! E a procurar explicações para a diferença. Seria genético? Ambiental? Causado pela alimentação? Destino? Karma?

A formiguinha atormentava-se, e nem dormia bem. E tentava “abrir as portas para o seu Eu interior”, tinha ouvido dizer que isso resolvia as coisas com as pernas diferentes. Tentava compreender o “significado cósmico” da sexta perna, e perceber porque tinha tido tão pouca sorte! E quando algum projeto não lhe corria bem sempre se lembrava de culpar a sua perna diferente pelo seu insucesso!

Ora quis o acaso da vida que esta formiga tivesse uma irmã gémea. Quem olhava para elas, lado a lado, nunca as conseguia distinguir. E, no entanto, não podiam ser mais diferentes.

Onde a primeira pensava em si como “imperfeita”, “incompleta”, e uma miríade de outros adjetivos começados por “in”, não pensava a segunda rigorosamente nada.

Não é que fosse desatenta, ou que não conhecesse perfeitamente o formato de cada uma das suas patas. Das suas antenas. Dos seus olhos. Do seu abdómen.

Esta irmã gémea já tinha admirado todos os seus dotes corporais. Dos vários ângulos de onde conseguia mirar. E até com a ajuda de espelhos. E tinha notado várias particularidades em cada um dos seus membros, e apêndices, e zonas. No entanto, a esta outra formiga nunca lhe tinha ocorrido dar-lhes um nome.

Nunca lhe tinha ocorrido separá-los da totalidade que ela era e dar-lhes uma identidade própria. Para esta formiga, desgostar-se com uma em particular da miríade de particularidades que reconhecia em si própria, pura e simplesmente nunca lhe tinha ocorrido!

E quando fazia coisas. Havia umas que conseguia, outras que nem por isso. Havia certamente umas coisas que lhe dava mais prazer fazer do que outras! Algumas coisas, ia fazendo. Porque “tinha de ser”, para ter boas notas, por exemplo. Ou porque tinha decidido faze-las, como as prendas de anos para a sua melhor amiga. Ou só porque sim, porque lhe davam prazer, ou porque eram um desafio. E raramente não conseguia fazer algo. Porque continuava a tentar fazer enquanto queria que estivesse feito, ou simplesmente desistia, quando deixava de querer.

Ora nunca, em momento algum lhe ocorreu separar-se em partes, dar-lhes um nome nem dizer-lhes: “A culpa é tua!”

Publicado por Ofélia Carvalho

Trainer de PNL e Doutorada em Ciências Biomédicas. Investigadora na área das neurociências e biologia molecular com mais de 20 anos de experiência. Consultora do "Panorama Social". Formada em "Time Line therapy", "Human Validation Model" de Virginia Satir, Comunicação generativa e Coaching sistémico.

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