Sobre o suicídio.

O Pedro Lima partiu. Antes de partir enviou mensagens de despedida a amigos. Estava sozinho. Foi encontrado sem vida, na praia do Abano, no Guincho no dia de 20 de Junho de 2020. Tinha 49 anos, cinco filhos, uma companheira de vida, era ator e desportista. Nasceu em Angola. A morte dele, sobre a qual neste momento conheço os detalhes que aqui relato, enviou um arrepio de medo pelo meu centro. Para mim foi óbvio que se suicidou. E o suicidio dele assustou-me.

Tive uma depressão grande quando era nova. Devia ter uns dezoito, dezanove anos. Nessa altura deixei de conseguir ver telenovelas. Reparei que eram sequências de pessoas a discutir, ou a enganar, ou em sofrimento. Nunca mais consegui olhar para elas. A minha depressão nasceu inesperadamente de um namoro que acabou. Nunca me quis suicidar, mas lembro-me de ter tido medo de o fazer. De me enterrar debaixo dos lençois, o mais longe possível da janela do meu quarto. Era um quinto andar, provavelmente não me matava, mas não tinha a certeza de não saltar na mesma. Se me distraisse. Se me deixasse ir. Se desistisse de me agarrar ao doloroso lado de cá.

Nasci em Luanda, Angola, em 1972. Saí de lá, com o meu irmão, em 1975. Aterrámos em Lisboa, ficámos numa vivenda com jardim com os meus avós. Os meus pais vieram ter connosco passado pouco tempo. Cresci a ouvir dizer coisas boas de Angola. O meu pai, que é quem conta as histórias na familia, foi feliz lá. Os momentos de incerteza e medo em Angola antes da decisão de vir. Eles falaram nisso, sim. Mas geralmente contados como factos, “aconteceu assim”. Eu, desses tempos, não me lembro. Porque era muito pequena. Porque convenientemente esqueci-me. Ouvi dizer que o nosso inconsciente consegue colocar memórias em sitios onde não as conseguimos reconhecer conscientemente quando não sabemos o que fazer com elas.

Cresci. Conheci outras mulheres da minha idade que também nasceram lá. Conheci-as cá. Uma falou-me sobre as violações frequentes que existiam naquele palco de guerra. Não com ela, era muito pequenina, mas com as mulheres adultas. Brancas. Suponho que as Negras tenham sofrido um destino idêntico. Era guerra. Contou-me sobre o prédio semi-acabado onde ficou a morar quando chegou cá. Outra, também da minha idade, falou-me das memórias que tinha dos primeiros tempos cá. Da confusão. Do medo. De tendas da Cruz vermelha. Eu tive um cão. A Farrusca. Na casa com jardim dos meus avós. E depois comprámos um apartamento. O tal num quinto andar de onde, mais tarde, tive medo de saltar.

Era adulta, o meu pai conta uma história sobre Luanda e os nossos últimos tempos lá. Como entraram em casa da minha familia, dos meus avós, durante a noite, um grupo de homens armados. Como bateram nos brancos, donos da casa, patrões, no inimigo, a minha familia. Conseguiram fugir, todos os meus, tivemos sorte. Fugiram a pé, pela estrada a caminho da nossa casa, depois das agressões. Nós tinhamos o carro. Bateram à nossa porta, a única outra porta com familia que tinham lá, em Angola. Nós tinhamos o carro. Disse-o com a emoção de quem fala de uma telenovela. Como se não fosse algo real. Como se não tivesse acontecido às pessoas que tomavam conta de mim. Que eram o meu porto seguro quando eu era bebé. Como se a casa que foi violada por estranhos armados durante a noite não fosse a minha casa. Senti-me como se me tivessem batido. Apertado a alma. “Estás a falar da minha familia!”. Era o meu pai. Engoli a dor, a surpresa, a mágoa. Calei-me.

A vida é uma sequência de embates. Conheci, recentemente, um filho de uma familia portuguesa. Suponho que pudesse ainda hoje ser chamado “rico”. Não sei. Tinha propriedades que vendidas renderiam talvez alguns milhões. O mercado imobiliário anda tolo. No Portugal pobre dos anos 70 sim, eram ricos. Na familia dele também houve medo. Os ricos, na altura da revolução, eram o inimigo. Nunca tinha pensado nisso. Na casa enorme e linda onde viviam, uma mãe portuguesa em Portugal também teve medo que pela porta entrassem agressores armados.

O “inimigo” somos todos nós. Uns para os outros. Uns dias agressor, outras agredido. À vez. Eu bato-te a ti, hoje. Tu bates-me a mim, amanhã. Vejo isto também em divórcios incontáveis. E há tantas vezes, algures, uma criança que não tem nada a ver com aquilo. E que grava nas células do seu corpo, com hormonas, com proteínas, com modificações do DNA, estas histórias das quais foi um protagonista involuntário. A memória da dor. A memória da impotência. A memória do medo. E tantas vezes esquece que se sentiu assim. Porque o corpo se protege. Porque a psique enterra longe da luz o que não quer ver. E esquece.

Viver com estas experiências desconhecidas é como tentar construir uma casa em cima de uma planicie que se estende sobre um mar de cadáveres enterrados. De buracos abertos cobertos com ervas. De pantanos, criados com a água de emoções que não sabemos que estão lá. De rios subterrâneos. E todos nós estamos a tentar construir vidas em cima de terrenos com partes assim, desconhecidas e instáveis.

Tive uma vez um sonho. Estava suspensa no vazio do espaço. Olhei para baixo e nada me suportava. Estava num enorme Nada, negro, com umas pontas de luz à distância, como se de estrelas se tratassem. Entrei em pânico. Medo. Medo cru. Daquele abismo. De cair. No desespero de encontrar ajuda olhei à minha volta. E vi o meu namorado da altura. Estava no mesmo vazio que eu. Tinha o ar tranquilo que eu lhe associo. Vi o meu irmão, também assim, de pé sobre o enorme abismo negro. Estavam suficientemente longe para não poder tocar em nenhum deles, mas o ar de calma e tranquilidade abriu em mim o espaço de que necessitava para ver. O abismo estendia-se por baixo de nós, mas entre aquelas pessoas que eu reconhecia, e que pertenciam à minha vida, existiam linhas que os uniam. Talvez uma rede, filamentos quase invisíveis,e entre estes havia algo sólido. Um chão invisível. Elas estavam interligadas, e nessa interligação havia um sustento. Era esse chão, feito de uma rede de relações humanas, que me sustentava entre as estrelas, no meio do nada que me rodeava. Devo ter acordado nessa altura. O meu inconsciente sabia que era algo de que eu precisava de me lembrar.

Comecei a estudar a linguagem e, por acaso da sorte, através da mão do Daniel Everett cheguei a uma descrição dos Pirahã num documentário magnífico. Os Pirahã são uma tribo que vive na selva Amazónica e que é descrita como tendo a “gramática da felicidade”. Vive no território da Amazónia que pertence ao Brasil, e converteu ao agnosticismo o missionário que a tentou converter ao cristianismo. A sociedade dos Pirahã baseia-se no princípio da “imediatismo da experiência”: apenas são consideradas reais ou importantes as experiências para as quais há evidência sensorial. Os Pirahã não se preocupam com o passado nem com o futuro. O verbo das frases é complementado com uma partícula que indica se a evidência descrita pelo verbo foi vista, ouvida ou deduzida. “O João foi pescar” obrigatóriamente transforma-se em “O João foi pescar_eu vi/ouvi/deduzi”. Jesus e as suas histórias deixaram de importar aos Pirahã quando descobriram que o Dan Everettt nunca o tinha conhecido, nem o pai do Dan, nem nenhum dos amigos do Dan. Não havia provas – das que importam – que Jesus alguma vez tivesse existido. Também não precisavam de salvação da morte, que é uma parte da existência, nem de uma explicação do inicio do mundo: “Conheces alguém que tenha vivido no mundo antes da floresta existir?”.

Esta tribo vive no agora. No presente. Dá pouca importância a bens materiais. Não guarda comida. Acorda, com fome, vai procurar algo para comer, na selva, no rio. As crianças, a partir dos 9 ou 10 anos, são capazes de tomar conta de si próprias. Entre esta tribo também não existe depressão nem tristeza. A ideia de suicidio, de que alguém possa terminar a sua própria vida, é recebida com hilariedade – como Daniel Everett descobriu com surpresa e dor quando partilhou com os Pirahã a história do suicidio da sua mãe (1).

Mas a depressão e o suicidio são coisas diferentes. Eu estive deprimida e nunca me quis suicidar. Apenas tive medo de o fazer. O meu nome não ajuda. O Pedro Lima, e inúmeros antes dele, e certamente já depois dele, suicidaram-se. Ativamente terminaram a sua vida. Rescindiram unilateralmente o contrato implicito que temos uns com os outros desde que nascemos. O contrato em que juntos criamos a rede que nos sustenta a todos.

Em média suicida-se no mundo uma pessoa a cada 40 segundos. Um dos fatores de risco para um suicídio consumado é a existência de uma tentativa de suicídio. As pessoas que não conseguem, voltam a tentar (3). Há uma miriade de teorias sobre o que leva um ser humano a suicidar-se. A desesperança é um indicador melhor do suicidio que a depressão. O incapacidade de imaginar um futuro diferente, em que a dor que sentimos agora já não existe, também. É extraordinariamente dificil estudar o suicídio. É até possível que diferentes caminhos, diferentes causas, levem pessoas diferentes ao suicídio. Há qualquer coisa que acontece no corpo, naquele momento, e procurar ativamente a morte é possível.

Os Pirahã acham hilariante a ideia do suicídio. Os Pirahã vivem numa sociedade simples e em que cada ser humano consegue providenciar a todas as suas necessidades desde os 9 anos de idade. Nós vivemos numa sociedade infinitamente mais complexa. Nós, para conseguir sobreviver neste mundo, também temos de aprender a conhecer e a lidar com os mares escondidos por baixo da superficie tranquila que apresentamos ao mundo.

Não sei se há dados sobre as emoções que levam um ser humano a decidir partir. Mas seja lá qual fôr esse conjunto de emoções, se estiveres a pensar nisso sabe uma coisa: vai doer-nos ficar sem ti. Mesmo a nós, os desconhecidos que não fazes ideia que existem.

Dá-nos a todos, por favor, uma hipótese de te agarrar.

Porque quando te agarramos a ti, sustentamo-nos a nós.

213 544 545 – 912 802 669 – 963 524 660

Diariamente das 16h às 24h

225 50 60 70

Todos os dias. Das 21h às 00h – Continente e Madeira. Das 20h às 23h – Açores.

22 832 35 35

Todos os dias 16h-23h

Livro:

(1) “Don’t sleep there are snakes: Life and Language in the Amazonian Jungle“, by Daniel Everett.

Artigos:

(2) “Lifestyle medicine for depression” by Sarris et al, 2014.

(3) “Epidemiology of Suicide and the Psychiatric Perspective” by Silke Bachmann, 2018.

(4) “Why do people kill themselves?” by ROBERT OLSON, LIBRARIAN, BA, MLIS, CENTRE FOR SUICIDE PREVENTION.

(5) “The Interpersonal Theory of Suicide.” Kimberley et al, 2011

Documentário:

(6) “The Grammar of Happiness” (2012)

Publicado por Ofélia Carvalho

Trainer de PNL e Doutorada em Ciências Biomédicas. Investigadora na área das neurociências e biologia molecular com mais de 20 anos de experiência. Consultora do "Panorama Social". Formada em "Time Line therapy", "Human Validation Model" de Virginia Satir, Comunicação generativa e Coaching sistémico.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: